Há décadas, o cuidado dos japoneses com a aparência desperta admiração no mundo todo. A imagem impecável do homem de terno e gravata ficou marcada como sinônimo do profissional totalmente dedicado ao trabalho.
No entanto, uma nova política aprovada pelo governo de Tóquio, após vários verões consecutivos de calor recorde, passou a permitir que seus funcionários usem bermudas no escritório.
"Todos me dizem que pareço mais jovem, que pareço mais acessível", contou Watanabe ao The New York Times. "Sinto que ajudo a deixar todo o ambiente do escritório mais descontraído", afirmou.
E é justamente esse o objetivo buscado pelo governo e pelas empresas.
A medida é a mais recente de uma série de iniciativas do governo japonês para convencer milhões de trabalhadores de escritório a se vestirem de forma mais leve durante o verão. A intenção é tornar a jornada de trabalho mais suportável e, ao mesmo tempo, reduzir o uso do ar-condicionado.
A iniciativa, conhecida como Cool Biz (abreviação de Cool Business), surgiu em 2005 por iniciativa do Ministério do Meio Ambiente e, hoje, está presente, em diferentes níveis de adesão, em praticamente todos os locais de trabalho do país.
Nos escritórios públicos, os termostatos permanecem ajustados para 28 °C entre maio e setembro. O verão passado foi o mais quente já registrado no Japão, com temperaturas quase quatro graus acima da média histórica.
A Agência Meteorológica do Japão chegou, inclusive, a criar um novo termo, kokushobi, para descrever os dias de calor "cruel".
O que até pouco tempo atrás parecia impensável — permitir o uso de bermudas — também gerou polêmica. A imprensa japonesa cunhou o termo sune-hara, algo como "assédio por pelos nas pernas", para descrever o desconforto que algumas mulheres dizem sentir ao ver as pernas descobertas de colegas homens em um ambiente formal.
Ruai Sajiki, de 23 anos, funcionária do governo de Tóquio, reconheceu que a imagem pode causar estranhamento, embora não tenha visto problema quando seu próprio chefe perguntou se poderia usar bermudas.
"Já vi as pernas do meu pai, então isso não me incomoda", disse. "É inevitável que existam opiniões diferentes e que algumas mulheres sintam resistência."
Nem todos enxergam a medida apenas como uma solução prática para enfrentar o calor. Embora a política se aplique oficialmente tanto a homens quanto a mulheres, algumas pessoas a consideram desigual.
Atsuko Tamada, professora de literatura francesa da Universidade Chubu, observa que as mulheres costumam investir tempo e dinheiro consideráveis com depilação, cuidados com os pés e vestuário.
A pergunta que ela faz é direta: se agora os homens são incentivados a usar bermudas ou sandálias, eles também deveriam ser cobrados pelos mesmos padrões de aparência exigidos das mulheres?
Por trás da polêmica há uma questão mais ampla, que envolve tanto a geopolítica quanto as mudanças climáticas.
Yuriko Koike, que comandava o Ministério do Meio Ambiente quando o movimento Cool Biz foi criado e atualmente é governadora de Tóquio, explicou, durante uma conferência realizada em abril, que o aumento das temperaturas e as interrupções no fornecimento de energia relacionadas à guerra no Irã obrigaram o governo a levar a iniciativa ao limite.
"Já ficamos sem mais camadas de roupa para tirar", disse ela, "até chegar ao ponto de usar bermudas".
A adoção das bermudas também se transformou em uma oportunidade comercial. Redes como a Yofuku no Aoyama, tradicional varejista japonesa de roupas sociais, lançaram neste verão uma linha Cool Biz com peças desenvolvidas especificamente para o ambiente corporativo, feitas com tecidos leves, corte formal e cores neutras.
Yui Hamano, porta-voz da marca, afirmou que a empresa chegou a testar como as roupas ficavam quando a pessoa estava sentada, para garantir que continuassem adequadas ao ambiente de trabalho.
Assim, impulsionado por uma onda de calor sem precedentes, o Japão passou a atualizar um código de vestimenta que, desde os anos 1990, era seguido com extremo rigor. Em vez de gravatas e sapatos de couro, as bermudas começam a ganhar espaço como uma alternativa para tornar mais suportáveis as longas horas no escritório.